Imoral, e daí?

Agostinho Vieira

globo.com/blogs/ecoverde


Entre as várias cenas brilhantes de “Lincoln”, o novo filme de Spielberg, algumas das mais interessantes acontecem durante os debates na Câmara de Representantes. Num certo momento, alguém pergunta preocupado: “O que virá depois da abolição dos escravos? O voto dos negros? Quem sabe o voto das mulheres?”. Democratas e republicanos revoltados protestam contra a possibilidade de que tal absurdo aconteça.

É curioso observar como os conceitos de certo e errado, legal e ilegal, ético ou antiético mudam com o tempo. Naquele momento, nos Estados Unidos, no Brasil e em vários outros países, um grupo enorme de cidadãos, por razões econômicas, sociais, morais ou qualquer outra, achava que a cor da pele diferenciava as pessoas. Tratavam com desdém o eventual voto dos negros e como inimaginável o das mulheres. E o pior é que quase 150 anos depois muita gente ainda pensa do mesmo jeito.

Por aqui, no Brasil do século XXI, seguimos nos indignando com as tragédias de janeiro, que quase já fazem parte do calendário. Os casos vão desde o naufrágio do “Bateau Mouche”, na virada de 1988, até o recente incêndio na boate de Santa Maria. Passando pelas enchentes, deslizamentos e mortes que vêm junto com as chuvas desta época do ano. Em todos os exemplos, nos chocamos com os vários níveis de corrupção, a irresponsabilidade de certos setores e o descaso do poder público.

O que me deixa intrigado é a facilidade com que separamos todas estas grandes e dramáticas histórias do que acontece no nosso dia-a-dia. A culpa é sempre da autoridade da vez, do empresário esperto, do fiscal corrupto. Como se eles viessem de outro planeta e tivessem ocupado indevidamente funções que deveriam ser de todas as outras pessoas corretas, responsáveis e honestas que estão por aí.

Tive um chefe que certa vez demitiu um funcionário que desviara R$ 30 da empresa para o seu bolso. Lembro que cheguei a argumentar e sugerir outro tipo de punição. Jamais esqueci a resposta: “Não existe roubo pequeno ou grande. Roubo é roubo e deve ser punido”. Nunca mais soube desse funcionário e, portanto, não sei se a demissão serviu de exemplo ou se ele passou a fazer coisas piores.

O fato é que a nossa tendência é tolerar os pequenos desvios. Que muitas vezes nem são tão pequenos assim. Principalmente se for de alguém próximo. O meu guri, como diz a música do Chico. Quantos adolescentes, por exemplo, entraram na boate Kiss usando uma carteira de identidade falsa? Outro dia uma jovem me explicou didaticamente que usando pó de café a falsificação fica melhor. Claro que isso não muda o incêndio, a falta de saída de emergência e os 235 mortos. Mas está errado.

E se em vez de falsificar a identidade ela tivesse comprado uma carteira de motorista? Quem não tiver um parente ou amigo que já comprou uma carteira, favor enviar uma mensagem com a sua história para o jornal. Os exemplos de fraudes, falcatruas e corrupções cotidianas são vários. Pode ser o rapaz que estava atrasado para um encontro e “molhou” a mão do guarda. Ou o senhor que tinha pouco dinheiro e resolveu subavaliar o imóvel comprado para pagar menos imposto.

E o que dizer das pessoas que baixam música da internet sem pagar? Isso é errado? Acho que sim. Chama-se piratear. Mas eu talvez seja o último ser humano que ainda paga pelas músicas que ouve. E o tal twitter da Lei Seca? Esse talvez seja o mais moderno exemplo de ilícito aprovado pela sociedade. Qual é o problema? Todo mundo faz? Por que ser o único otário a pagar multa e perder a carteira?

É provável que nos Estados Unidos ou no Brasil do século XIX alguém dissesse a mesma coisa sobre ter ou não um escravo em casa. Que mal há? Quem garante que o jovem que falsificou a identidade, comprou uma carteira e viu o pai burlar o fisco não vai fazer o mesmo quando for empresário, fiscal ou político? Até o meu querido Flamengo recolheu o IR dos jogadores e não enviou para a receita federal. Quantas empresas consideradas sérias não estão neste momento fazendo a mesma coisa e chamando de “produtividade fiscal”?

Dizem que a melhor forma de inocentar alguém é botar a culpa em todo mundo. Não é essa a minha intenção. Mas acho que a tarefa de cada um de nós vai muito além de cobrar, fiscalizar e votar com mais consciência. Aliás, agora os prefeitos dizem que vão ser mais rigorosos na fiscalização das boates. Isso pode ter dois efeitos: diversão mais segura para os jovens ou tabela de propinas maiores. É imoral, e daí?

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Uma resposta para “Imoral, e daí?

  1. Carlos Alberto da Silva Cucco

    Caso não baste tem o perdão divino que é muito cômodo, no final de todos os recursos esgotados, tem o perdão de deus.E é aclamado na casa de deus ao dar seu testemunho.Quiçá alguns 10%.

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