VOCÊ CONCORDA?

Por Jonas Rabinovitch

Dizem que a realidade é como um espelho quebrado: cada um segura um pedacinho e acha que está vendo o todo.  O todo geralmente tem mais detalhes e nuances do que cada um de nós pensa.

O preço dos aluguéis subiu. Ninguém reclamou.  O preço dos restaurantes subiu. Ninguém reclamou.
O preço das roupas subiu. Ninguém reclamou.  O preço do supermercado subiu. Ninguém reclamou.
Os preços no Rio, São Paulo, etc…ficaram mais caros do que na maioria dos países desenvolvidos. Ninguém reclamou.  

A passagem de ônibus subiu 20 centavos.  Protestos e guerra urbana como não víamos há décadas nas ruas do país…  

O que está acontecendo?  Todas as explicações fazem sentido:  

  • Depois de ficar tanto tempo sem reclamar, os vinte centavos de aumento teriam sido a gota d’água.
  • Depois de ficar tanto tempo sem reclamar, os vinte centavos mobilizaram a classe média, antes desmobilizada.
  • Depois de ficar tanto tempo sem reclamar, os vinte centavos mobilizaram as esquerdas sem voz, frustradas com administrações – petistas ou não – “vendidas ao capitalismo”.
  • Depois de ficar tanto tempo sem reclamar, os vinte centavos mobilizaram os filhos das classes mais ricas, genuinamente ansiosos por apoiar uma causa justa.
  • Depois de ficar tanto tempo sem reclamar, os vinte centavos mobilizaram a classe trabalhadora, frustrada sem ter ônibus e mobilidade para chegar em casa depois de um longo dia de trabalho.  
  • Depois de ficar tanto tempo sem reclamar, os vinte centavos mobilizaram os revoltados e baderneiros de plantão – contratados ou não – para iniciar o quebra-quebra.        
  • Depois de ficar tanto tempo sem reclamar, os vinte centavos mobilizaram movimentos sociais anônimos, cheios de boas intenções.
  • Depois de ficar tanto tempo sem reclamar, os vinte centavos mobilizaram os PMs: os honestos, os pais de família com baixos salários e os sádicos, para baixar porrada.

Não é sempre que um motivo aparentemente tão pequeno consegue mobilizar de forma tão abrangente segmentos tão diversos.  Quando isso acontece, ninguém entende.  Ou então cada um tem a sua explicação, todas igualmente válidas.O importante é entender que o todo ficou muito maior do que a soma das partes.  

As passagens de ônibus não vão diminuir.  Os problemas acima não se resolverão apenas por causa de passeatas.  O meio é o fim ?  

Por enquanto, temos gente inocente ferida, policiais feridos, algumas prisões, e o Congresso apreciando uma medida para limitar a atuação transparente do Ministério Público.  Muita política partidária mobilizando energias imensas para ganhos mínimos, os quais nem sempre beneficiam o país.      

Grandes movimentos da História já aconteceram, para o bem ou para o mal, quando fatos igualmente pequenos conseguiram mobilizar a sociedade como um todo.  No nosso caso, acho uma pena que não existam lideranças políticas autênticas capazes de direcionar essa energia potencial no sentido de reconstruir o país: com igualdade, com transparência, com prestação de contas e sem corrupção, com boa governança, com voz para todos, com competência administrativa em todos os níveis.

A mobilização é importante.  E depois?  Históricamente, quando existe mobilizaçãp sem direção, os extremistas tiram proveito.  Segundo a teoria política, as posições mais comuns são:

reacionária (reagindo a mudanças), conciliadora (algumas concessões permitindo pequenas mudanças), reformista (alguns setores precisam mudar sériamente) ou revolucionária (mudar todo o sistema).  Depois de algumas poucas décadas democráticas, todos perderiam se os extremismos prevalecerem nesse momento.  Eu penso nos processes que levaram países como Austrália, Coréia do Sul, Finlândia, Japão, Nova Zelândia e outros a se desenvolverem.  Parafraseando o Budismo, os caminhos do meio existem.  

Mas nada vai mudar sem uma série de reformas sérias que respondam de maneira transparente à insatisfação reinante.  Uma reforma educacional, uma reforma administrativa, uma reforma previdenciária e uma reforma no sistema de transporte público são apenas quatro exemplos já citados muitas vezes antes.                                            

Não estou aqui criticando nenhum político ou partido.  Apenas lamento a oportunidade desperdiçada –  historicamente, o momento valeria muito mais do que vinte centavos….                            

 Jonas Rabinovitch é brasileiro, niteroiense, vive em Nova Iorque, e trabalha em uma conhecida organização inter-governamental.

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