Escárnio, covardia e miséria de muitos

Milton Hatoum – O Estado de S.Paulo, 13/9/13

O sujeito saiu da prisão e fez um discurso emocionado na Casa onde homens e mulheres representam o povo. Dizem que em plena sessão parlamentar o condenado se ajoelhou, fez suas preces e gritou “aleluia”, as mãos para o céu.

 

Estranha litania de um desavergonhado! Ainda assim, a infinita bondade divina pode acolher a oração dos crentes, indistintamente. Mas, em casos extremos de opróbio e cinismo, até uma divindade se envergonha de alguns fiéis, incluindo os do alto e os do baixíssimo clero.

O choro e a oração do deputado fazem parte dos rituais de dissimulação e hipocrisia encenados por políticos e empresários corruptos. Essa encenação barata significa uma total indiferença à lei e à coisa pública. As lágrimas, preces e gestos calculados são rituais de outro culto, nada religioso: o velho personalismo de uma certa elite política. O escárnio da cena é aviltante. Não menos aviltante é o voto secreto, que permite a cumplicidade de réus inconfessos ou de gente que teme a punição de futuros atos criminosos.

Ainda é atual e necessária a leitura de Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda:

“No Brasil, pode-se dizer que só excepcionalmente tivemos um sistema administrativo e um corpo de funcionários puramente dedicados a interesses objetivos e fundados nesses interesses. Ao contrário, é possível acompanhar, ao longo de nossa história, o predomínio constante das vontades particulares que encontram seu ambiente próprio em círculos fechados e pouco acessíveis a uma ordenação impessoal”.

De fato, nossas constituições são feitas para não serem cumpridas, as leis existentes para serem violadas. As vontades particulares, cochichadas em círculos fechados, são um acinte a uma verdadeira democracia. Outro político – um senador de Rondônia também condenado pela Justiça – é dono de uma estação de rádio. Dezenas de deputados e senadores são proprietários de jornais, estações de rádio e tevê. Essa é mais uma aberração do nosso sistema político.

Na década passada, um promotor público disse que o dinheiro roubado por políticos em conluio com empresários mata crianças e usurpa o futuro de jovens brasileiros. E é verdade. Com os mais de 8 milhões de reais roubados dos cofres de um Estado do Norte, as famílias pobres são as mais prejudicadas. A violência e a miséria na zona rural de Rondônia são tão alarmantes quanto a destruição da floresta. Isso acontece também no Pará e em Mato Grosso, sem falar na vergonhosa ausência de infraestrutura urbana em bairros pobres de Manaus, Macapá, Cuiabá e de outras capitais da Amazônia.

Numa entrevista ao Estadão (1.º/9/2013), o presidente da Câmara afirmou que seus pares sentiram “dó” de Donadon. Por isso, e também por corporativismo, o político criminoso não foi cassado. Desconfio que a imensa maioria do povo brasileiro não sente dó desse deputado.

Segundo Bolívar Lamounier, há décadas – pelo menos desde os anos 1950 – o povo brasileiro é saqueado por um novo tipo de clientelismo: as relações promíscuas dos três poderes com construtoras, agências de publicidade, empresas de transporte urbano e de coleta de lixo.

A farra é geral e não se limita a esse ou aquele partido. Quase todo o sistema político se alimenta da promiscuidade entre o público e o privado. Como desatar esse nó? Como instaurar transparência e lisura nas licitações de obras e serviços dos governos federal, estadual e municipal? Como, enfim, transformar em democracia a caricatura de uma democracia?

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Uma resposta para “Escárnio, covardia e miséria de muitos

  1. Muito bom artigo, acredito que a situação política deste país só mudará quando os direitos e deveres dos parlamentates e outros instâncias do Estado passem a ser iguais a qualquer outro cidadão deste país, sem privilégios. Que recebam as punições e sanções cabíveis pelos crimes cometidos.
    Que todo servidor público seja ele parlamentar ou não receba um salário compatível com o que ganha a maioria da população, que usassem o SUS para atendimentos médicos, que seus filhos estudem em escolas públicas e para se aposentarem cumpram com as regras que são impostas aos trabalhadores comuns, 30 ou 35 anos de contribuição.
    Só assim teremos um governo verdadeiramente voltado para os interesses da sociedade.

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