Tony Bellotto – No O Globo deste domingo

Má educação é a nossa Cartago

Torcedores rivais se enfrentaram numa batalha de fazer inveja ao mais descerebrado dos hunos

Colosso

O coliseu de Roma tem seu nome originado na expressão latinacolosseum, que se referia à estátua gigantesca do imperador Nero que adornava seus entornos. O anfiteatro foi usado por quatro séculos como centro de entretenimento, e suas ruínas permanecem como símbolo fotografável do Império Romano e ponto turístico concorrido. Lá se exibiam combates de gladiadores, lutas e caçadas de animais selvagens, execuções sangrentas e até batalhas navais, quando a arena era inundada por dutos subterrâneos alimentados por aquedutos, prodígio da arquitetura etrusca assimilado pelos romanos.

Panis et circensis

A política do pão e circo foi utilizada por antigos administradores romanos com o intuito de dirimir o descontentamento do povo com seus governantes. A estratégia consistia em oferecer grandes espetáculos públicos enquanto se distribuía pão ao povaréu animado. A prática teve como consequências elevação de impostos e a subsequente derrocada da economia do Império. Vale dizer que tudo isso ocorreu dois mil anos antes da criação do Bolsa Família, do Ultimate Fighting e do Campeonato Brasileiro de Futebol.

De volta para o futuro

Há duas semanas um grupo de bárbaros brasileiros protagonizou na Arena Joinville — na aprazível cidade catarinense de altos índices de desenvolvimento humano — cenas lamentáveis de violência, embora desafortunadamente corriqueiras. Durante o jogo entre Atlético Paranaense e Vasco, torcedores rivais se enfrentaram numa batalha de fazer inveja ao mais descerebrado dos hunos, socando-se e chutando-se como se vivêssemos na Roma antiga. Injustiça: na Roma antiga o pessoal era mais civilizado. Lá os espetáculos aconteciam na arena, conduzidos por lutadores profissionais, enquanto o povo se divertia nas arquibancadas. Em Joinville, ao mesmo tempo em que jogadores profissionais se horrorizavam em campo com a barbárie, nas arquibancadas alguns representantes do cordial, alegre e pacífico povo brasileiro se incumbiam de tentar matar uns aos outros.

Breve pausa para orientação espacial

Onde está o Brasil verdadeiro? Na imagem dos boçais se agredindo em Joinville ou na da bela figura de Fernanda Lima anunciando na Bahia o sorteio das seleções da Copa do Mundo? Ambas as alternativas estão corretas? Respostas para a Redação.

Rebeldes sem causa, sem calça e sem graça

Com torcedores como esses, por que se preocupar com manifestantes?

As autoridades, a FIFA, a polícia e os brasileiros pacíficos não devem temer black blocs e outros possíveis — e prováveis — manifestantes que se insurjam violentamente contra a realização da Copa do Mundo no Brasil. Torcedores como os que se digladiaram em Joinville são manifestantes muito mais contundentes e radicais da grande desgraça brasileira e representam uma ameaça bem mais aterradora e eficiente. Ainda que se possa reduzi-los todos a farelo do mesmo sacolé, ao contrário dos black blocs os bárbaros de Joinville não usam máscaras, despreocupados com a revelação de suas identidades. Se forem presos, outros milhares surgirão, como zumbis, com a mesma determinação obstinada de destruição. Também ao contrário dos black blocs, os vândalos dos estádios — desculpe, das “arenas” — não agem motivados por nenhuma ideologia além da devoção canina a agremiações esportivas e preferem o aniquilamento sangrento de semelhantes à ingênua depredação de vidraças e placas de trânsito.

“Eis a beleza da coisa”, diria o doutor Strangelove com um sorriso, momentos antes de o mundo acabar numa grande hecatombe.

Catão

Os acontecimentos de Joinville só atestam mais uma vez que chegamos ao fundo do poço. E que o fundo do poço — surpresa! — não tem fundo. Desculpem-me os burocratas, os otimistas e os empreendedores de plantão, mas parece só haver uma solução para a barbárie brasileira: a Educação. Claro que situações como essa demandam medidas urgentes de segurança pública, infraestrutura, organização dos estádios e vergonha na cara, mas é bastante coerente que enquanto angariarmos resultados pífios em pesquisas sobre índices de educação, continuaremos a manifestar nossa violência irracional com requintes de campeões do mundo. No primeiro governo Lula uma das poucas coisas realmente animadoras foi a nomeação de Cristovam Buarque como ministro da Educação. Cristovam, assim como seu xará genovês, sabe que só se descobre um novo mundo com coragem, conhecimento de causa e determinação inabaláveis. Buarque preconizava uma revolução radical no ensino, mas caiu fora do governo tão logo os escândalos de corrupção começaram a pipocar. “Delenda est Carthago”, dizia Catão, político romano que sempre finalizava seus discursos alertando que Cartago, por ameaçar o Império Romano, devia ser aniquilada.

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