PARA CONHECER, DE VERDADE, O PORQUÊ DA TRAGÉDIA NO ESPÍRITO SANTO

A TRAGÉDIA ANUNCIADA E O “CONDOMÍNIO”
Maciel de Aguiar
A vinda da presidente Dilma Rousseff ao Estado do Espírito Santo, do ponto de vista humanitário, pode ser considerada um fato histórico: nenhum presidente da República visitou as terras capixabas na véspera de Natal, sobretudo em decorrência das circunstâncias climáticas e diante de um “cenário devastador”.
No entanto, o que foi visto do alto pela presidente é a confirmação de uma tragédia anunciada. O naturalista Augusto Ruschi (1915-1986), há meio século, previu essas calamidades em função do desmoronamento de barreiras provocado pelas chuvas, o desmatamento das encostas e, sobretudo, as inundações das cidades em virtude do assoreamento dos rios e córregos, além do desordenamento da ocupação do solo urbano.
Da década de 1950 aos anos de 1980, Ruschi se rebelou contra o establishment diante da devastação da Mata Atlântica para a implantação de grandes projetos capitaneados pelas transnacionais poluidoras. E até ameaçou invadir o Palácio Anchieta. Ele alertava para o perigo das chuvas, dos desmoronamentos e das enchentes, mas não foi ouvido. Ao contrário, foi combatido pelo Governo do Estado.
Nesse período, muitos capixabas instalaram centenas de serrarias de Linhares a Pedro Canário e tomaram de assalto o Sul da Bahia, derrubando toda a exuberante Mata Atlântica até Itamaraju. No rastro da devastação, surgiram fazendas de gado e de café, além de vilas e cidades. Mas o cenário era de terra arrasada.
Com o ímpeto indomável da destruição, os capixabas levaram as primeiras motosserras para o Amazonas e criaram a cidade de Paragominas, no Sul do Pará. Várias reportagens contaram o início dessa aventura, sobretudo as do jornalista Rogério Medeiros, no Jornal do Brasil. E o capixaba se especializou na destruição da natureza, dentro e fora do Estado.
Faz-se necessário lembrar que o Espírito Santo também gerou o maior defensor das matas: Augusto Ruschi. Durante anos, no programa Fantástico, da Rede Globo,  Ruschi emocionou o Brasil com sua luta em defesa dos beijaflores ameaçados de extinção. Acabou vitimado pelo veneno de um sapo e, em decorrência disso, beijou a face da eternidade. Foi sepultado no que sobrou da Mata Atlântica, em sua terra natal.
 
Não obstante isso, o Estado do Espírito Santo também gerou o maior assassino da natureza: Rainor Grecco (1930-2004). Este, derrubou 60 milhões de árvores ao redor do mundo e fechou muitos cabarés em Paris para festejar suas façanhas, sempre acompanhado de belas mulheres e de autoridades de vários países. Grecco, no auge da devastação das florestas, comandou um tenebroso exército de 1000 motosserras.
Ruschi quase não saiu de Santa Teresa, onde criou o Museu Melo Leitão e construiu uma trincheira para enfrentar a sanha devastadora do Governo do Estado do Espírito Santo e diante da ameaça de destruição da Estação Ecológica de Santa Lúcia para uma empresa plantar palmito. Lá, ele recebeu apoio do País inteiro e o Palácio Anchieta desistiu da sandice. Mas, a batalha para salvar o território capixaba das tragédias climáticas estava perdida.
Nos últimos 50 anos o território capixaba presenciou a devastação de 90% de suas matas nativas, acompanhou a devastação de suas encostas, o assoreamento dos seus rios e as transnacionais poluidoras invadindo o litoral, além da monocultura do eucalipto se expandindo, o desordenamento do solo e o descompromisso com o meio ambiente. Sem falar as toneladas de pó de minério despejadas nos pulmões dos habitantes da Grande Vitória. Era a confirmação da destruição da natureza onde ela foi mais exuberante.
Ao findar o ano de 2013, na véspera do Natal, o Estado do Espírito Santo foi vitimado por sua mais recente calamidade, segundo a mídia: “provocada pelas chuvas”. As notícias dos mortos e desabrigados fizeram a presidente Dilma Rousseff sair do conforto do Palácio da Alvorada e da celebração familiar para sobrevoar o local da tragédia, anunciada há meio século, e afirmou: “˗ Nunca vi uma situação tão grave”.  
Alguém poderia lhe repetir as palavras do brilhante naturalista: “˗ A responsabilidade por várias mortes em decorrência das chuvas será do governo do Espírito Santo, que vai transformar o Estado em inúmeras tragédias”. Mas, como o propósito era sensibilizar a presidente para a liberação de recursos financeiros, e atribuir a responsabilidade do acontecido à natureza, parece que deu tudo certo!   
Ruschi, o “profeta das matas”, fez a afirmação ao Globo Repórter, em 1981. Ele ainda previu as enchentes devastando as cidades capixabas, sobretudo na Grande Vitória, além de Santa Teresa, Colatina, Baixo Guandu e outras localidades do Noroeste e Norte do Estado, justamente as que Dilma Rousseff sobrevoou na véspera do fatídico Natal e se disse “estarrecida”. E não era para menos! 
Mas a tragédia não deveria causar “surpresa” ao Governo Federal. O que foi visto pela presidente da República Federativa do Brasil vem sendo maturado há décadas pelo próprio Governo do Estado do Espírito Santo, e se repete nas estações de chuvas com maior ou menor intensidades. Sem falar as gestões irresponsáveis que, pasmem, ainda são “recompensadas financeiramente”, em função dos decretos de “emergência” ou “calamidade”.
Além disso, a maioria das cidades capixabas, sobretudo as da Grande Vitória, são administradas como se fossem de papelão. Com as chuvas além do esperado para o período, elas, literalmente, desmancham em função do desordenamento da ocupação do solo e da ausência de obras de saneamento e infraestrutura. E nem é preciso dizer dos gestores que cometem atos inconcebíveis.
Então, a presidente Dilma perdeu uma boa oportunidade para determinar ao Governo do Estado do Espírito Santo mais responsabilidade na proteção das encostas, matas, restingas e mananciais. Além disso, poderia pedir mais rigor na fiscalização da gestão das cidades. Porém, o que se viu pela mídia foi o anúncio do Governo Federal na liberação de milhões de recursos financeiros para “beneficiar o infrator”.
Assim, com o “estado de emergência” decretado pelo Palácio Anchieta e a generosidade do cofre da viúva não haverá presente de Natal mais gratificante para os responsáveis pela devastação ambiental e, principalmente, para o deleite do “condomínio da política capixaba”. Embora todos tivessem empenhados no “esforço” de não transformar o ato humanitário da primeira visita da presidente Dilma Rousseff ao Estado em uma, digamos, “causa partidária”.
Por certo a presidente Dilma Rousseff reservará outras datas para visitar o Estado do Espírito Santo, e, provavelmente, nunca se esquecerá deste Natal de 2013, quando presenciou milhares de famílias capixabas desabrigadas pelas chuvas, vítimas de uma tragédia que, cada vez mais, poderá se repetir. Mas, lamentavelmente, ela ficou sem saber que tantas mortes e perdas poderiam ser evitadas.
Porém, nem tudo está perdido. Em ano eleitoral, o “condomínio” agradece! 
 Maciel de Aguiar
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