RESILIÊNCIA

Nova Ética Social
Amelia Gonzalez
globo.com

Este foi o ano em que caiu neve no Oriente Médio. Foi também o ano em que incêndios destruíram um território considerável da Austrália, em que um tufão, que recebeu o nome de Hayan, atingiu as Filipinas e deixou muita destruição.
Houve ainda tempestades terríveis na Índia e vendavais estão deixando a Grã-Bretanha em estado de alerta.

Aqui no Brasil tivemos as enchentes de sempre, a seca eterna no Nordeste, e os gaúchos têm sofrido com temperaturas acima do que jamais viveram naquelas terras sempre muito mais frias do que o resto do país.

Não quero ser estraga-prazeres, longe de mim lembrar de coisas desagradáveis num período de festas. Mas moro no Rio de Janeiro, onde a última chuva, no início do mês, não deixou saudades: quatro mil desabrigados e quatro mortes.

Assim sendo, concordo com o texto editorial que li ontem na editoria de meio ambiente do jornal britânico “The Guardian” online: sim, os desastres vêm da natureza. Mas há muito deixaram de ser eventos que se considere comuns. E os governos precisariam estar seriamente se preparando para enfrentá-los.

Penso mesmo que qualquer candidato a qualquer cargo político executivo deveria apresentar planos de prevenção contra eventos climáticos em sua plataforma. Porque é uma forma de salvar vidas, e não há motivo mais forte do que este para se estar debatendo qualquer coisa.

A questão macro, muito bem levantada pelo editorial do “The Guardian”, é que os países ricos têm como enfrentar o problema mais rapidamente. Mais do que isso: os países ricos têm como se preparar contra o pior. E a preparação é fundamental.

Nas Filipinas, o furacão Hayan matou mais de seis mil pessoas, deixou 1.800 desaparecidas e arrasou mais de um milhão de casas.
Em Odisha, na costa da Índia, em outubro, um ciclone tropical fortíssimo matou 21 pessoas.

A diferença entre eles, segundo o “The Guardian”, foi justamente o fato de os indianos terem um bom modelo de preparação e um governo preocupado com isso: quase um milhão de pessoas foram evacuadas a tempo.

A Organização das Nações Unidas (ONU) tem um escritório com profissionais que trabalham apenas para a redução dos riscos dos desastres climáticos. Eles fizeram uma pesquisa recentemente e analisaram 83 mil registros de dez mil municípios em 16 países do Caribe e América Latina entre 1990 e 2011. E descobriram que a metade de todas as mortes e a maioria das perdas econômicas relacionadas aos desastres naturais nesses locais foram consequência de seca, deslizamentos de terra, incêndios florestais, tempestades comuns, inundações, ondas de calor e pequenos terremotos. Todas tragédias em pequena escala e em pequenas comunidades que causaram também um prejuízo de US$ 53 bilhões, comparável ao prejuízo causado pela passagem do furacão Sandy pelos Estados Unidos em 2012.

A diferença é que os Estados Unidos têm seguro. Quando os mais pobres são afetados por um fenômeno da natureza que lhes tira tudo, eles ficam sem nada mesmo.

Já existe uma estatística dando conta de que são 250 mil refugiados do clima no mundo. Pessoas que, de uma hora para outra, ficaram sem ter onde dormir, o que comer, o que vestir, beber água, se alimentar. É disso que estamos tratando. E não precisamos ir muito longe para conhecer essa realidade. Infelizmente, aqui mesmo, bem pertinho, ainda temos pessoas marcadas fortemente pela tragédia que aconteceu na Região Serrana do Rio em 2011. Foram seis mil desabrigados e quatro mil já estão de novo enfrentando o perigo de morar num lugar de risco.

Uma parte do relatório do Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC) divulgado em setembro de 2013 trata especificamente, a pedido da ONU, de mostrar como é possível gerenciar os riscos dos eventos climáticos.
Virou um certo modismo desconfiar que o IPCC blefa sobre as estatísticas em nome de um interesse econômico maior.
Para enfrentar esse boato, nada mal lembrar que, somente para esse estudo, são 220 cientistas de 62 países diferentes e que, até agora, os dados receberam mais de 18 mil comentários de revisão.

Para esses profissionais, medidas de adaptação incluem sistemas de alerta precoce; uma boa comunicação entre os que podem tomar decisões urgentes e as pessoas que moram em lugares vulneráveis. Além disso, eles apontam a necessidade de uma gestão sustentável da terra, incluindo o planejamento do uso do solo e dos ecossistemas. É preciso ainda, segundo o relatório, melhorar a gestão da saúde da população, o abastecimento de água, ter um sistema de saneamento e de irrigação e drenagem; aplicar códigos de construção civil e melhorar a educação e a conscientização. Tarefas imprescindíveis para qualquer gestão executiva de cidades e municípios, sobretudo quando são pobres. E está tudo disponível online.

Reparem também como não há nenhum absurdo nas propostas apresentadas, mas tudo depende de organização e vontade política. São iniciativas que pouco rendem holofotes aos administradores, no entanto. Daí, talvez, a necessidade de se reiterar cada uma delas.

A nós, cidadãos brasileiros, que sempre teremos do nosso lado a possibilidade de escolher tais administradores, resta checar, na hora de conferir a plataforma política antes de dar o voto, se eles estão, pelo menos, prometendo ter um olhar mais atento para essas questões. O nome disso, no fim das contas, será gestão sustentável.

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