Quem se importa?

Agostinho Vieira

Da esquina já dava para ver uma fila na porta. Umas doze pessoas, pelo menos três com mais de sessenta ou setenta anos. Espera de meia hora, avisou o último. Não era uma repartição pública, uma agência do INSS, mas uma loja da Light, empresa privada que declara ter a missão de “prover energia e serviços com excelência e de forma sustentável, contribuindo para o bem-estar e o desenvolvimento da sociedade”.

Do lado de dentro, a menos de dois metros do primeiro da fila, duas fileiras de cadeiras azuis, parecendo novas, permaneciam vazias. Por que não estão todos esperando sentados, como sugere o ditado? Não dá. É preciso passar por uma triagem. Dois funcionários educados e sonolentos decidem o que será feito da sua vida. E os velhinhos? Também aguardam em pé. Assim como as cadeiras, tudo parecia novo e funcionando. O ar-condicionado, os computadores, os uniformes, o discurso. Organizadamente indiferente, insensível. Quem se importa?

Muito já se escreveu sobre a baixa qualidade dos serviços no Brasil, de um modo geral, e do Rio, em particular. Dizem que será a nossa grande vergonha durante a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos. Não estamos preparados. Há quem resuma tudo a um problema de governo, dos órgãos e dos funcionários públicos. Eles seriam mal pagos, preguiçosos e teriam a sua ineficiência protegida pela estabilidade. Uma mistura de clichês, generalizações e algumas verdades. Não é tão simples assim.

Se tudo ou quase tudo funcionava na privatizada e terceirizada loja da Light, por que ninguém pensou em incluir um sorriso no rosto dos funcionários? Por que ninguém tomou a iniciativa de romper com o regulamento, ser gentil com os clientes e deixá-los sentar? Talvez porque exista um sentimento generalizado de que está tudo uma droga. Nada funciona, ninguém liga, não aconteceu no meu horário, não é comigo. Uma espécie de síndrome da hiena Hardy do desenho animado: “Oh vida! Oh azar! Isso não vai dar certo”. Assim, vale a lei de murici e cada um que trate de si.

O motorista que dirige pelo acostamento para chegar antes, o que fecha o cruzamento para avançar 52 centímetros e atrapalha a vida de todos, os que usam a buzina como acelerador. Não faltam exemplos. Se cada um pensar um pouco terá logo uma lista de dez práticas que mostram o egoísmo, a falta de educação e de civilidade dos outros. Nunca as nossas, é claro. Se o mundo fosse governado por nós e por alguns dos nossos amigos, não todos, ele seria perfeito.

Por que recolher o lixo que levo para a praia se mais ninguém faz isso? Não dá para carregar barraca, toalha, cadeira, fugir da areia quente e ainda levar as garrafas vazias e os restos de comida. Mas, em um dia foram 40 toneladas de sujeira, uma montanha. Viu? Vi. Esse pessoal é muito porco mesmo. Tem também os limpinhos. Aqueles que lavam a calçada com a mangueira, os que tomam banho de 40 minutos. Se faltar água não é por minha culpa. Esse governo é muito incompetente.

A questão é que os governos incompetentes, os políticos corruptos e os maus empresários vieram todos da mesma sociedade, com as mesmas regras de convivência, mesmo erros, acertos e indiferenças. Talvez tenham visto seus pais mentirem, serem imprudentes no trânsito e desperdiçarem água e energia. Podem ter tido um professor que depois da aula de geografia jogou o cigarro aceso no chão.

Quem não assina a carteira da emprega doméstica hoje, talvez amanhã não veja problema em ter uma empresa que explora o trabalho infantil. Os que molham a mão do guarda pela manhã, não terão escrúpulos em sonegar impostos à tarde. O mesmo vale para o empregado que rouba comida do restaurante, “esquece” um produto da loja na bolsa ou coisa parecida. Em um mundo de hipocrisia, vale tudo.

Como não é possível exigir um recall da humanidade, apesar de vários exemplares apresentarem defeito, precisamos encontrar uma maneira mais civilizada de seguir em frente. Um documentário da diretora Mara Mourão, que recebeu exatamente o nome de “Quem se importa”, pode servir de inspiração. Ele apresenta as histórias de 18 empreendedores sociais que resolveram dedicar suas vidas aos outros.

Exemplos como o do Nobel da Paz Muhammad Yunus, criador do Grameen Bank, que oferece microcrédito para milhões de famílias pobres, especialmente mulheres, sem exigir garantias. Loucura? A taxa de recuperação dos empréstimos é de 98,85%. Infelizmente, casos como o de Yunus e muitos outros continuam representando uma minoria. Palavras como solidariedade, bondade, confiança, honestidade e fé andam muito fora de moda.

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