O PUM PERFUMADO

Maciel de Aguiar*
(Pergunta do blog: Leitor, você concorda ou acha esta crítica forte demais?)

Li, estarrecido, em O Globo, a proposta do Ministro do Esporte, Aldo Rebelo, de intervenção do Governo Federal no futebol brasileiro. Como?
O futebol é uma paixão universal e a Copa o único evento capaz de paralisar o planeta diante da TV. Nem o poderoso Estados Unidos ficou alheio ao jogo da bola e até o presidente Barack Obama se juntou aos milhões de apaixonados torcedores.
Será que o ministro pensa em estatizar o futebol? Somente um governo incompetente não percebe que essa é uma atividade privada e que poderia (sim) ser mais organizada, eficiente, lucrativa e menos corrupta. Há muito o Brasil não joga bola como antigamente e se converteu apenas em um exportador de jogadores talentosos.
A desfaçatez da pretensão tardia do ministro, diante da dor do povo brasileiro e aos olhos incrédulos do mundo, provoca-me um ato de repulsa. Assim, escrevo com o sentimento de quem tenta se livrar, nesses tempos estranhos, de um incômodo fisiológico e com a imperiosa vontade de tampar as narinas.
Na véspera da Copa do Mundo, o goleiro de um grande clube fez uma afirmação estarrecedora: “– Ganhar roubado é mais gostoso!”. Será a síntese do que somos como Nação ou como administramos o futebol?
Hoje, ainda não conseguimos digerir o choro dos milhões de cidadãos brasileiros e lemos a “solução” capitaneada pelo Ministro Aldo Rebelo. É óbvio que o Governo Federal está desnorteado, nocauteado e em contagem regressiva. A Copa serviu para mostrar ao mundo a enorme generosidade de nosso povo e expor as mazelas das gestões incompetentes do Estado e do futebol brasileiros.
O ex-jogador Romário, há anos, anunciou essa tragédia, e o ministro jamais o recebeu para ouvir dele o porquê da necessidade de modernização das práticas de gestão do futebol e, sobretudo, do combate à corrupção na construção dos estádios, aeroportos, etc.
O “baixinho” fez até um apelo à presidente Dilma Rousseff. Mas o Ministério do Esporte se julgou acima do bem e do mal. Perdeu a oportunidade de evitarmos a maior decepção do nosso futebol e, em decorrência disso, “seu” governo irá carregar a mácula da mais vergonhosa derrota sofrida pelo Brasil, e não apenas dentro dos campos.
A pretensão do Ministro Aldo Rebelo traz as marcas do acinte e da indignidade, além do desdém e da cretinice, sem falar da desfaçatez, da falácia, do oportunismo, da incompetência, do casuísmo e da desonra.
Como inquilino do Ministério do Esporte, ele deveria saber que a Seleção Brasileira corria o iminente risco de um gigantesco fiasco pelo fato de não ter um técnico que pudesse fazer uma leitura atualizada dos adversários e muito menos do atual momento do futebol mundial.
Assim, com malabarismos do marketing dos insensatos e muita corrupção, realizamos a Copa do Mundo. E, para colocar o time em campo, fez-se um elenco sem expressividade técnica e com atletas, em sua maioria, na reserva em seus clubes. E, no primeiro descontrole emocional, os jogadores abriram o berreiro. Não estávamos preparados dentro ou fora dos gramados! Tínhamos apenas um time de “fulecos”.
E vieram as pífias vitórias contra Croácia, México, Camarões, Chile e Colômbia. O Governo Federal, “tão zeloso” da imagem do Brasil diante dos olhos do mundo, deveria colocar as barbas de molho. Livramo-nos de perder para seleções sem a menor tradição em copas e, no primeiro jogo, verdadeiramente diante de um adversário à altura da glória da Seleção Canarinho, a Alemanha, protagonizamos o óbvio: a mais desonrosa derrota da História do Futebol Mundial nos últimos 100 anos. Perdemos de 7×1. Um massacre!
Por fim, veio a Holanda: 3×0. Menos mal… Isto é, não perdemos a camisa! Em alguns campeonatos pelo interior do Brasil existe uma regra capitular: o time que perde de 10×0 entrega a camisa ao vencedor. Caso a regra fosse do “padrão Fifa”, poderíamos perder a “amarelinha”. Sofremos 10 gols, em dois jogos, é certo! Foi por pouco!
Não obstante isso, o que mais dói é a indignidade oficial. O Ministério do Esporte, em plena Copa do Mundo no Brasil, jamais pensou em homenagear os jogadores que nos deram inúmeras alegrias. Nem um desagravo à memória do extraordinário goleiro Barbosa, condenado há 64 anos de execração por um gol em um jogo disputadíssimo, com um placar de 2×1 para o Uruguai, em 1950, e com os jogadores fazendo a partida de suas vidas. Na ocasião, mesmo ensanguentando a alma nacional, perdemos com honra. Agora, perdemos com desonra!
O Ministro do Esporte não soube, ao menos, reconhecer o antecessor de “sua” cadeira, Édson Arantes do Nascimento, Atleta do Século XX e Rei do Futebol. Nem uma fotografia do mais espetacular jogador de todos os tempos ele tinha sobre a mesa, até em agradecimento a quem esfregou a bunda em um assento para ele se sentar com conforto e segurança.
Não bastasse a injustiça à liturgia do cargo, Aldo Rebelo também desdenhou da glória de Pelé pelos gramados do mundo. Como também tripudiou dos dribles intangíveis de Garrincha; fez pouco caso da folha seca de Didi; zombou da garra de Bellini; vilipendiou a categoria de Nilton Santos; menosprezou a coragem de Vavá; dentre tantos outros “crimes” cometidos contra a memória dos inúmeros heróis do futebol brasileiro, “esquecidos” pelo Ministério do Esporte.
Em um governo digno, todos os ex-jogadores de um país pentacampeão mundial, em uma Copa do Mundo, seriam homenageados, mas Aldo Rebelo preferiu jogar a história da mais sublime das paixões populares do Brasil no vertical poço da desonra.
Sinceramente, pelo descompromisso do Ministro Aldo Rebelo com as glórias do futebol brasileiro, penso que ele não merecia sentar-se na principal cadeira do Ministério do Esporte. Acho até que ele sentia asco de um possível peido que Pelé deixou suavemente esvair-se como uma necessidade natural.
Ministro Aldo Rebelo, você que parece não peidar, poderia relevar aquela imperial necessidade fisiológica. Não foi um peido qualquer em “sua” cadeira. Foi um peido de um menino que virou Rei do Futebol aos 17 anos. E sabe onde isso aconteceu, Ministro? Foi na aristocrática e monarquista Suécia. E diante de um rei de olhos azuis e súditos maravilhados. Foi um peido de um menino rei, descendente de escravos, afro-brasileiro, e que foi arrebatado por uma paixão universal. E, naquela tarde fria de Estocolmo, quando o jovem Pelé repousou a cabeça no ombro do inesquecível goleiro Gilmar para chorar copiosamente, o fez em honra da nossa pátria.
Já o “seu” ministro anterior, Orlando Silva, que saiu pelas portas dos fundos do Ministério do Esporte, eivado de denúncias de corrupção e desserviços prestados ao futebol de nosso país, possivelmente você o mantém em uma vistosa fotografia sobre a mesa, em lugar imerecido.
Hoje, ao saber de sua sugestão tardia de intervenção do Governo Federal no futebol brasileiro, após a mais desonrosa (e previsível) participação da Seleção Nacional em copas, penso que você não merece o odor do peido que Pelé deu em “sua” cadeira: você merece se prostrar sobre o que o ministro Orlando Silva deixou em seu assento e fazer bom proveito dessa condição abjeta.
Assim, comparado à latrina na qual o “seu” governo joga a imagem do Brasil e você jogou a glória do futebol brasileiro, o hipotético peido que Pelé deu em “sua” cadeira, quando Ministro do Esporte, foi um belo peido perfumado.
*Maciel de Aguiar é escritor
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