A fonte secou

“Eu não sou água pra me tratares assim. Só na hora da sede é que procuras por mim”

São versos de uma canção de amor desfeito. Mas revelam a maneira cotidiana como vemos a água num país que tem um quarto dos recursos hídricos do planeta: basta procurá-la na hora da sede.

Um motorista de táxi de São Paulo aproveitou o trânsito lento para me contar como foi a reunião do condomínio onde mora. No final, perguntou se não estava me chateando. Despedi-me sem dizer a ele que, ao contrário, estava me inspirando. Ver o tema da água invadindo as conversas, mudando hábitos, era presenciar o início de uma pequena revolução cultural vivida pela Califórnia, que reformulou suas leis, ou mesmo por Israel, que transformou a escassez de água em produção tecnológica que lhe rende muitas divisas.

Há oito anos, fui convidado pelo Greenpeace para falar na Holanda sobre os temas que poderiam inspirar suas campanhas. Éramos eu e um americano. Propus água, ele propôs as bombas sujas que o terrorismo estava produzindo. Senti que havia mais interesse pela bomba suja. Durante muito tempo, minha ênfase na questão da água foi enfadonha como uma reunião de condomínio. Com a seca, até as reuniões de condomínio são emocionantes. Em São Paulo, tomar um banho coloca questões éticas que sempre existiram, mas agora ganham um sentido de urgência. Estou consumindo mais do que devo?

É a primeira grande seca que vivo na região. No início dos 1980, viajei para o Nordeste para documentar a seca no sertão de Irauçuba, no Ceará. Viajei com o Mário Ferreira, e sua câmera Ikegami não aguentava o calor seco: os controles eletrônicos enlouqueciam com frequência. No Sudeste nem todos se deram conta da seca, algo impossível no sertão. Ela é mais branda, no entanto arrasou rios como o Piracicaba, secou nascentes como a do São Francisco e alterou o cotidiano de São Paulo. Nunca tinha visto os paulistas na rua festejando a chegada da chuva.

Apesar das consequências sociais e econômicas, a seca foi vivenciada de uma forma um pouco blasé nas eleições de 2014. Imaginem que o Congresso brasileiro não fez ainda uma única e miserável audiência para tratar do assunto. Parecem acreditar que isso passa com a chegada das chuvas, que é perder tempo tratar do assunto. A ideia de um país com água abundante ainda domina o imaginário. De fato temos muita água, mas o problema é sua distribuição ao longo do país. Temos boas leis sobre recursos hídricos e um excelente instrumento de gestão: o comitê de bacia. Uma das leis determina o pagamento da água tirada dos rios pelas empresas e agronegócio, destinando o dinheiro para os comitês de bacia.

Mesmo com um mapa indicando o caminho, avançamos pouco. Nas reuniões de que participei do Comitê de Bacia do Piracicaba, sempre esteve muito claro que o rio estava sobrecarregado. Suas águas eram usadas por São Paulo, Campinas, duas cidades imensas, além das outras menores da região. Hoje, compreendo que essas previsões, feitas com tanta antecedência, entram por um ouvido e saem por outro.

Costumamos dizer que a água traz um potencial de conflitos para o século XX1 como o petróleo trouxe para o século XX. Mas e daí? Agora que a seca atinge algumas das áreas mais populosas do Brasil é hora de uma mudança que passa pelos hábitos cotidianos. Mas não se esgota neles. Com a queda dos reservatórios, talvez tenhamos que combinar economia de água e energia simultaneamente. Já tivemos uma experiência de economizar energia, no fim do governo Fernando Henrique. A sociedade respondeu bem. O governo pelo menos se abriu. Foi criado um gabinete de crise, e várias vezes, mesmo sendo de oposição, fui lá trocar ideias com Pedro Parente, designado para cuidar da crise. O apagão de 2001 foi mais dramático, mas a crise atual, leio, custou quatro vezes mais ao país: R$105 bilhões. Um debate nacional sobre a crise da água e, no caso brasileiro, sua enorme repercussão na energia, é mais do que urgente. O governo estava na luta eleitoral e, vencedor, dedica-se agora às escaramuças da partilha do poder. Passamos tanto tempo discutindo se o país estava dividido, e nem nos demos conta de que secou a nascente do rio da unidade nacional.

Estou partindo para Itu, uma cidade do interior de São Paulo atingida pela seca. Dizem que os carros-pipas circulam com escoltas armadas, e as pessoas passam noites nas filas para receber um pouco de água. É um documento sobre a sobrevivência urbana na seca. Mas não basta para colocar a seca na agenda nacional. E, com governo em fase de toma lá da cá com os os partidos aliados, meu medo é que a queda das chuvas, mesmo que modestas, mergulhe o tema, de novo, no limbo da memória.

Nesse caso, será preciso esperar uma nova crise. E se consolar com um poema de Elizabeth Bishop sobre a beleza da chuva caindo em nosso telhado. Dizem que água mole em pedra dura tanto bate até que fura. Mas as pedras, no Brasil, às vezes são duras demais. E a água, agora sabemos, anda um pouco escassa.

Artigo publicado no Segundo Cader do Globo em 09/11/2014

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